Um dia de manhã, Marli acordou e percebeu que se transformara num piolho. “Que bom”, ela pensou. “De doméstica a funcionária pública em uma madrugada.” Marli, então, saltou do travesseiro e começou a pular pelo seu barraco. Pulando, pulando, chegou ao quarto dos filhos e viu que dormiam sossegadamente.
Quando viu a cabeleira encardida do caçula, sentiu uma vontade irresistível de pular ali dentro. Não deu outra. Marli saltou e, quando colocou as patas no solo novamente, sentiu que pisava num chão macio e quente. “É gostoso aqui”, concluiu.
Depois de olhar ao redor, o parasita começou a caminhar por entre aquela vegetação espessa. Tinha de tudo ali: fiapos de manta, pedacinhos de pirulito, caspa, gotículas de saliva. Alguns passos adiante, Marli encontrou algumas lêndeas. “A professora tinha jurado que a cabeça dele tava limpa”, emburrou-se. Não demorou muito, deparou com um casal de piolhinhos se agarrando atrás de uma moitinha. “Vocês não têm vergonha? Na cabeça de uma criancinha?”, xingou.
Marli começou a ficar indignada. Jamais pensara que seu filho mais novo pudesse ter tantas porcarias na cabeça. Alguns passos mais, encontrou um piolho velho defecando. “Mas o senhor é mesmo um porco. Na cabeça do meu filho?” E quanto mais caminhava, mais encontrava situações vergonhosas e escatológicas. “Que cabeça nojenta. Quando eu voltar, a primeira coisa que vou fazer é passar creolina nessa cabeça”, refletiu.
Após poucas horas, Marli começou a sentir uma dor de estômago violenta. A barriga começou a roncar. Era fome. Ela sabia de que os piolhos se alimentavam e jurou que preferia morrer a chupar o sangue do próprio filho. À beira da morte, porém, o parasita não suportou a dor da fome e fincou a mandíbula no couro cabeludo da criança. O sangue que saía dali era quentinho e adocicado. Marli sentira a vida voltando.
Depois de encher a barriga, sentiu que explodiria. Sentou-se apoiando-se num fio e começou a babar. Pensamentos delirantes vinham-lhe pela cabeça. “Quando eu voltar…” Mas e se jamais voltasse? E se permanecesse piolho pelo resto de seus dias? Se ficasse assim para sempre, nunca poderia limpar aquela cabeça suja. Marli então apertou os olhos e começou a chorar. Chorou tanto que sentiu que o corpo esvaziava-se novamente. Adormeceu.
Quando acordou, não sabe quantas horas depois, Marli ainda era um piolho. E foi assim por uma vez, depois por outra, depois por outra e por outra. Já havia se acostumado à vida de parasita do próprio filho. Também já andara atrás da moitinha com um piolho qualquer, também já defecara, já botara centenas de lêndeas inclusive. Estava há tanto tempo nessa vida, que pensava que a outra é que era irreal.
Um dia, porém, Marli acordou humana novamente. Acabara a vidinha de sanguessuga. Voltara ao seu barracão. “Que sonho horrível”, desabafou. Levantou da cama e foi caminhado até o quarto dos filhos. Lá, encontrou o caçula dormindo profundamente. Sentou ao lado dele, observou-o e ficou se perguntando como uma criança pequena podia ter tanta porcaria na cabeça. Levantou uma das mãos para afagar a cabeleira. Depois, foi deslizando-a até o rosto do pequeno. Gelado. Gelado de morte. Marli virou o corpo da criança e viu sua face branca. Branca como se lhe tivessem sugado todo o sangue do corpo.
