Metamorfose

13 de janeiro de 2012

Um dia de manhã, Marli acordou e percebeu que se transformara num piolho. “Que bom”, ela pensou. “De doméstica a funcionária pública em uma madrugada.” Marli, então, saltou do travesseiro e começou a pular pelo seu barraco. Pulando, pulando, chegou ao quarto dos filhos e viu que dormiam sossegadamente.

Quando viu a cabeleira encardida do caçula, sentiu uma vontade irresistível de pular ali dentro. Não deu outra. Marli saltou e, quando colocou as patas no solo novamente, sentiu que pisava num chão macio e quente. “É gostoso aqui”, concluiu.

Depois de olhar ao redor, o parasita começou a caminhar por entre aquela vegetação espessa. Tinha de tudo ali: fiapos de manta, pedacinhos de pirulito, caspa, gotículas de saliva. Alguns passos adiante, Marli encontrou algumas lêndeas. “A professora tinha jurado que a cabeça dele tava limpa”, emburrou-se. Não demorou muito, deparou com um casal de piolhinhos se agarrando atrás de uma moitinha. “Vocês não têm vergonha? Na cabeça de uma criancinha?”, xingou.

Marli começou a ficar indignada. Jamais pensara que seu filho mais novo pudesse ter tantas porcarias na cabeça. Alguns passos mais, encontrou um piolho velho defecando. “Mas o senhor é mesmo um porco. Na cabeça do meu filho?” E quanto mais caminhava, mais encontrava situações vergonhosas e escatológicas. “Que cabeça nojenta. Quando eu voltar, a primeira coisa que vou fazer é passar creolina nessa cabeça”, refletiu.

Após poucas horas, Marli começou a sentir uma dor de estômago violenta. A barriga começou a roncar. Era fome. Ela sabia de que os piolhos se alimentavam e jurou que preferia morrer a chupar o sangue do próprio filho. À beira da morte, porém, o parasita não suportou a dor da fome e fincou a mandíbula no couro cabeludo da criança. O sangue que saía dali era quentinho e adocicado. Marli sentira a vida voltando.

Depois de encher a barriga, sentiu que explodiria. Sentou-se apoiando-se num fio e começou a babar. Pensamentos delirantes vinham-lhe pela cabeça. “Quando eu voltar…” Mas e se jamais voltasse? E se permanecesse piolho pelo resto de seus dias? Se ficasse assim para sempre, nunca poderia limpar aquela cabeça suja. Marli então apertou os olhos e começou a chorar. Chorou tanto que sentiu que o corpo esvaziava-se novamente. Adormeceu.

Quando acordou, não sabe quantas horas depois, Marli ainda era um piolho. E foi assim por uma vez, depois por outra, depois por outra e por outra. Já havia se acostumado à vida de parasita do próprio filho. Também já andara atrás da moitinha com um piolho qualquer, também já defecara, já botara centenas de lêndeas inclusive. Estava há tanto tempo nessa vida, que pensava que a outra é que era irreal.

Um dia, porém, Marli acordou humana novamente. Acabara a vidinha de sanguessuga. Voltara ao seu barracão. “Que sonho horrível”, desabafou. Levantou da cama e foi caminhado até o quarto dos filhos. Lá, encontrou o caçula dormindo profundamente. Sentou ao lado dele, observou-o e ficou se perguntando como uma criança pequena podia ter tanta porcaria na cabeça. Levantou uma das mãos para afagar a cabeleira. Depois, foi deslizando-a até o rosto do pequeno. Gelado. Gelado de morte. Marli virou o corpo da criança e viu sua face branca. Branca como se lhe tivessem sugado todo o sangue do corpo.

A solução é processar o professor

13 de janeiro de 2012

A semana foi cheia de notícias sobre professores. Estranho. Estranhíssimo, eu diria. É como se os professores do Brasil tivessem resolvido se rebelar contra o sistema. Aliás, acho que foi mais como se o sistema tivesse resolvido se rebelar contra os professores. Isso porque, das notícias que chegaram a mim, duas soaram como um tipo de boicote à educação.

A primeira delas aconteceu no Distrito Federal, na cidade-satélite de Taguatinga. Eis que um professor de Inglês entrou na sala de aula para ministrar sua disciplina, como fazia todo dia. Conversa vai e conversa vem, o cara começou a dançar funk no meio da sala e foi descendo até o chão, intercalando com a coreografia do Créu. Teve até a participação de uma aluna, que acompanhou o mestre. Um aluno que achou aquilo tudo o máximo resolveu filmar e colocar no Youtube. Quando sua mãe assistiu ao vídeo, ficou escandalizada e decidiu processar o professor (que bela aliteração, não?) porque o infeliz, segundo ela, estaria incitando sexualmente os jovens. Resultado: além de responder processo, o docente pode ter o diploma cassado.

O que é que eu penso disso? Não só eu, como todo mundo que tem alguma noção dentro da cabeça, acha absurda a história, é claro. Se no Gugu pode dançar funk, se na Eliana pode, se no Faustão pode, se nas raves da vida pode, se em todo lugar pode, por que dentro da escola é diferente? Ah, já sei. Escola não é lugar de se divertir, não é verdade? Na escola os professores são robôs altamente treinados para ensinar o conteúdo, única e exclusivamente. Nada de brincadeiras nem de dancinhas nem de qualquer comportamento que denuncie que são humanos. Professor humano? Onde? Quando? Tenho pena dessa mãe que pensa que aquela inocente brincadeira do professor tenha despertado a sexualidade de alunos de doze, quinze anos. Em que mundo será que ela vive? Quando é que a sociedade vai entender que o professor é um profissional como qualquer outro? Há quem diga que professores são educadores e devem dar o exemplo. Perdoem-me, mas educadores somos todos: o prefeito, a mãe, o pai, o policial, o vendedor, o professor. Eu me nego veementemente a atribuir toda a responsabilidade de educar ao professor.

Esse foi o primeiro caso. Impressionante, não? Espere até conhecer o segundo, que recebi por e-mail de uma colega. Esse aconteceu em Porto Alegre, há cerca de um mês. Professor de Física e diretor de um colégio, o homem estava dando sua aula até que surgiu a ‘aluna turista’ (aquele tipo que aparece só para visitar a escola, sabe?). A menina sentou-se e começou a falar alto no fundo da sala, enquanto o infeliz do professor tentava explicar um conteúdo complicado. O cara se segurou até o momento em que o celular da aluna tocou e (pasmem!) ela atendeu dentro da sala. Aliás, faço um parêntese para dizer que isso não é a coisa mais rara do mundo. Há inclusive pais que ligam para o celular de seus filhos em pleno horário de aula. Não existe mais telefone na escola, parece. Mas, enfim. Diante da situação, o professor repreendeu a menina, que saiu se esgoelando de tanto chorar e foi para casa no maior estilo Chiquinha: “o professor me xingou e me humilhou e me espancou e blá-blá-blá…”. Não deu outra: a mãe processou o professor por ter repreendido sua filhinha em público, por danos morais, essas coisas. No e-mail que recebi, o docente desabafa e fala sobre o desejo de abandonar para sempre a educação.

O que comentar sobre esse caso? Se cada professor resolvesse processar o aluno que atrasa seu trabalho, alegando impedimento ao exercício da profissão (nem sei se isso existe, mas tem lei para tudo atualmente), então eu acho que a situação se inverteria. Contemos, professores, a quantidade de vezes que paramos nossas aulas para pedir silêncio, para pedir atenção, para pedir que tirem os fones de ouvido, para pedir que desliguem os celulares. A educação passa por uma crise que ninguém enxerga. Ou faz de conta que não enxerga. É uma das poucas áreas em que o profissional parece não ter autonomia, porque a legislação simplesmente não o ampara, não o protege e, por vezes, parece ir contra ele. Um dia não haverá mais professores. A sociedade vai implorar por mestres. E talvez nesse dia percebam nossa importância. Aliás, percebam nossa humanidade, porque os professores são humanos, têm famílias, se divertem, ficam cansados, levam trabalho para casa.

Sou professora. Amo o que eu faço. E é por esse amor que zelo pela minha profissão. No dia em que ir para a escola for legal, divertido e gostoso para o aluno, então estaremos dando um passo a favor da educação. Por enquanto, fica a tristeza e a incompreensão pela frieza, indiferença e injustiça com que o país trata os docentes.

Ouvindo nossas Julietas

13 de janeiro de 2012

Na semana passada, assisti ao filme ‘Cartas para Julieta’, um romance lançado recentemente, com belíssimas locações em Verona, na Itália. Famosa por ter sido palco da história de amor entre Romeu e Julieta, a cidade tem como ponto turístico a Casa de Julieta. Ao longo dos anos, milhares de pessoas visitam o local e, num ritual que se tornou conhecido no mundo inteiro, escrevem cartas à personagem shakespeariana, solicitando conselhos amorosos e, após, fixando-as nas paredes da casa.

Em ‘Cartas para Julieta’, a jovem Sophie, numa lua de mel antecipada, viaja a Verona com o noivo. Lá, a moça encontra a Casa de Julieta e descobre que todas as cartas são respondidas por mulheres que chamam a si mesmas de secretárias de Julieta. No meio disso tudo, ela acidentalmente encontra uma carta escrita há cinquenta anos e que, por ter se perdido, jamais foi respondida. Sophie, então, decide respondê-la, aconselhando a remetente a não desistir do verdadeiro amor. Após receber a resposta, a autora da carta, agora uma jovem com quase setenta anos, vai a Verona com o neto, a fim de reencontrar seu grande amor. O interessante da história é que, em determinado momento, Sophie terá de lidar com os próprios conselhos quando, numa das voltas que a vida dá, a moça encontra o amor num beijo que não é o de seu noivo.

Isso mês fez pensar em quantos de nós já estivemos em situações desesperadoras e desejamos escrever uma carta a Julieta, acreditando que sua resposta pudesse mudar nossas vidas. Acontece que vivemos no mundo real e no mundo real não existe Julieta e também não existem respostas certas. Diante da crise, tudo o que podemos fazer é respirar fundo e confiar na intuição, aquela partezinha tão íntima de nosso ser a qual raramente damos ouvidos.

No entanto, crescemos acreditando em contos de fadas e finais felizes. E, nessas histórias, a mocinha nunca enfrenta percalços amorosos. Fico imaginando se, de repente, a Branca de Neve resolvesse escrever uma carta a Julieta dizendo que deixara de se interessar pelo príncipe encantado e andava dando mole para um dos sete anões. E se Julieta respondesse que desistir do príncipe implicaria o fim de todos os contos de fada? Ou se, ao contrário, ela dissesse “vá em frente e siga seus instintos”? Na verdade, todos esperamos uma carta de Julieta porque todos tememos a hora da escolha. Vivemos numa sociedade que não tolera equívocos, por isso sabemos que nossas escolhas são irreversíveis. Agora, se alguém escolhe por nós, então as consequências dessa escolha, se forem negativas, não serão culpa nossa.

Ora, as respostas de Julieta estão dentro de nós mesmos, basta procurá-las. Fazer escolhas nunca foi fácil. A escolha correta é aquela que nos permite ficar em paz com nossa própria consciência. Muitas vezes, resistimos a elas, porque muitas vezes relutamos em optar por aquilo que queremos. Tememos ser egoístas, egocêntricos, magoar pessoas. Então, nesse momento, Julieta internamente nos responde para aplacarmos a ansiedade e manter os pés no chão. Se, contudo, decidimos tomar as rédeas de nosso próprio destino, a Julieta lá de dentro, talvez com algum temor, nós dará apoio.

As respostas de Julieta, portanto, não são certas nem erradas. Elas dependem daquilo em que acreditamos.

A última metáfora

13 de janeiro de 2012

– Vê aquele pássaro lá longe?
– Uhum…
– Parece meu amor por você… Sempre voando pra te encontrar.
– Hmmm…
– E aquelas lagartas?
– Uhum…
– São como minha paixão por você… Sempre se transformando e ficando mais linda.
– Hmmm…
– O que foi, Antonieta?
– Nada…
– Nunca é nada quando uma mulher fica em silêncio.
– Sério?
– Não seja irônica.
– Marcelo, você vê aquele aterro sanitário?
– O que tem?
– Parece meu lado de dentro. Repleto de lixo.
– Por que você fala isso, Antonieta? Não gosta das coisas que eu te digo?
– Não muito.
– Por quê?
– Porque você fala demais.
– Você queria que eu falasse menos?
– Não.
– Então o quê?
– Queria que você não falasse sozinho. Você fala para você, entende?
– Como assim?
– Você adora o som da própria voz. Adora suas próprias metáforas.
– Claro que não!
– Claro que sim.
– Ah, Antonieta, como eu me enganei com você…
– Não diga isso.
– Achei que você gostasse das minhas metáforas.
– É você quem gosta delas.
– Ao menos posso tentar uma última?
– Pode.
– Vê aquela nuvem?
– Uhum…
– É como você: impossível de ter.
– Hmmm… Terminou?
– Acho que sim.
– Também tenho mais uma.
– Certo.
– Vê aquele catador?
– Sim.
– Sou eu, tentando juntar meus pedaços.
– Eu despedacei você, Antonieta?
– Não, Marcelo.
– Então o quê?
– É que você sempre me coloca no céu…
– E daí?
– Como posso viver no céu se há tantas partes de mim espalhadas pela terra?

Mãe e filha

13 de janeiro de 2012

A mãe quarentona entra no quarto da filha adolescente, que está no MSN conversando com o namorado:
– Rebeca, já chamei três vezes para o almoço.
– Ah, mãe, calma aí, já tô terminando.
– Minha filha, você não desgruda desse computador.
– Mãe, mas é o Chiuaua.
– Rebeca, podia ser o Pitbull, que eu não ia me importar. Anda, desliga esse computador.
– Não é computador, mãe, é um note.
– Tanto faz, anda logo.
– Mãe, calma. Já tô indo. O Chiuaua já tá saindo e…
– Rebeca, se você não sair, vou chamar o seu pai.
– Não faz isso, mãe, que você perde a autoridade, sabia?
– O quê?
– A professora de psicologia disse que mães que ameaçam os filhos dizendo que vão chamar o pai estão transferindo sua autoridade.
– Que bobagem.
– Você que tá pagando pra eu escutar bobagem então…
– Não foi isso que eu quis dizer.
– Viu? O Chiuaua saiu. Não precisa mais se preocupar.
– Rebeca, você anda muito respondona. Você não era assim.
– É que eu sou adolescente, mãe. A professora de psicologia disse que, por causa da explosão hormonal, é normal os adolescentes passem por mal educados.
– Ah, é? E a sua professora de psicologia também disse que filhos que desobedecem aos pais têm maior probabilidade de perder a mesada?
– Não, isso ela não disse.
– E, por acaso, ela não disse que adolescentes que são apelidados com nome que equivalem a raças de cachorro muito provavelmente devem ter alguma problema de autoestima ou de relacionamento?
– Não…
– Claro que não, ela não é a sua mãe.
– Mas, mãe, VOCÊ é a professora de psicologia do colégio.
– Exato. Mas essa é a hora de ser mãe, não professora.
– Mas é tudo a mesma coisa.
– Você acha?
– E não é?
– Meus Deus… Terei falhado como mãe ou como professora?

Bolinho de brócolis

13 de janeiro de 2012

Na volta da casa da sogra, depois do almoço de domingo.
– Quitéria, quando é que a sua mãe vai descobrir que eu odeio aqueles malditos bolinhos de brócolis?
– Não fala assim, Péricles, é maldade.
– Maldade? Maldade é fazer bolinho de brócolis sabendo que eu detesto brócolis. Sua mãe é má, Quitéria.
– Por que você fala assim da minha mãe?
– Você também fala da minha, então não se faça de inocente.
– Mas a diferença é que a sua mãe faz aquelas besteiras de propósito.
– Exato, porque a sua faz por puro retardamento mental.
– Chega. Passou dos limites, Péricles.
– Lembra do nosso casamento? Ela te convenceu a colocar os bolinhos de brócolis no cardápio da janta. Quem é que põe bolinhos no cardápio do casamento? E ainda por cima de brócolis?
– Ai, Péricles, ela já tá velha, não muda mais. Temos que respeitar isso.
– A minha mãe também está velha e nem por isso está gagá.
– Você que pensa…
– Não entendi.
– Sua mãe é uma neurótica, Péricles. Sabe o que eu peguei ela fazendo esses dias enquanto estava lá em casa e eu preparava um chá? Ela estava abrindo as portas do nosso guarda-roupa e estava cheirando, veja bem, cheirando as suas roupas!
– Ora, queria ver se estavam cheirosas, é só.
– Ah, claro, como se eu fosse porca e não soubesse lavar suas roupas. Daí a inspeção.
– Quitéria, não faça tempestade em copo d’água. Isso não é pior do que ser obrigado a comer os malditos bolinhos de brócolis. Qualquer dia vou vomitar na mesa e vai ser um estrago.
– Não exagera. Você come esses bolinhos há dez anos e nunca vomitou.
– Não na frente de vocês. Por que você acha que eu sempre vou ao banheiro depois do almoço?
– Ué, por causa da sua síndrome do colo irritado, não é?
– Síndrome do estômago irritado, você quer dizer. Claro que não. Isso foi uma coisa que inventei pra poder regurgitar esses malditos bolinhos de brócolis.
– Nossa, Péricles, eu não achei que fosse tão sério esse ódio pelos bolinhos da mamãe.
– Sim, Quitéria, é bem sério. Quase morro botando os bagos pra fora quando venho comer aqui ou quando ela cisma em fazer algum piquenique ou quando vamos viajar e ela leva aquela cesta no carro.
– Vou falar com a mamãe de novo sobre isso.
– Ela sempre se faz de desentendida. Mas dessa vez deixei uma mensagem subliminar que talvez fale por si só.
– O que você fez, Péricles.
– Larguei um barro verde no vaso e, adivinha: não dei descarga! Hahaha… Tinha até uns pedacinhos de brócolis no meio.
– Péricles!
– Calma, era só a massinha de modelar da Astride.
– Você acha que vai funcionar?
– Assim espero. Funcionou na época em que ela me obrigava a comer bife de fígado.
– É mesmo, mamãe nunca mais fez bife de fígado. O que você fez?
– Lembra quando a schmier com pedacinhos de morango sumiu misteriosamente da geladeira…?
– Aham…
– Então…

Na volta da casa da sogra, depois do almoço de domingo.

– Quitéria, quando é que a sua mãe vai descobrir que eu odeio aqueles malditos bolinhos de brócolis?

– Não fala assim, Péricles, é maldade.

– Maldade? Maldade é fazer bolinho de brócolis sabendo que eu detesto brócolis. Sua mãe é má, Quitéria.

– Por que você fala assim da minha mãe?

– Você também fala da minha, então não se faça de inocente.

– Mas a diferença é que a sua mãe faz aquelas besteiras de propósito.

– Exato, porque a sua faz por puro retardamento mental.

– Chega. Passou dos limites, Péricles.

– Lembra do nosso casamento? Ela te convenceu a colocar os bolinhos de brócolis no cardápio da janta. Quem é que põe bolinhos no cardápio do casamento? E ainda por cima de brócolis?

– Ai, Péricles, ela já tá velha, não muda mais. Temos que respeitar isso.

– A minha mãe também está velha e nem por isso está gagá.

– Você que pensa…

– Não entendi.

– Sua mãe é uma neurótica, Péricles. Sabe o que eu peguei ela fazendo esses dias enquanto estava lá em casa e eu preparava um chá? Ela estava abrindo as portas do nosso guarda-roupa e estava cheirando, veja bem, cheirando as suas roupas!

– Ora, queria ver se estavam cheirosas, é só.

– Ah, claro, como se eu fosse porca e não soubesse lavar suas roupas. Daí a inspeção.

– Quitéria, não faça tempestade em copo d’água. Isso não é pior do que ser obrigado a comer os malditos bolinhos de brócolis. Qualquer dia vou vomitar na mesa e vai ser um estrago.

– Não exagera. Você come esses bolinhos há dez anos e nunca vomitou.

– Não na frente de vocês. Por que você acha que eu sempre vou ao banheiro depois do almoço?

– Ué, por causa da sua síndrome do colo irritado, não é?

– Síndrome do estômago irritado, você quer dizer. Claro que não. Isso foi uma coisa que inventei pra poder regurgitar esses malditos bolinhos de brócolis.

– Nossa, Péricles, eu não achei que fosse tão sério esse ódio pelos bolinhos da mamãe.

– Sim, Quitéria, é bem sério. Quase morro botando os bagos pra fora quando venho comer aqui ou quando ela cisma em fazer algum piquenique ou quando vamos viajar e ela leva aquela cesta no carro.

– Vou falar com a mamãe de novo sobre isso.

– Ela sempre se faz de desentendida. Mas dessa vez deixei uma mensagem subliminar que talvez fale por si só.

– O que você fez, Péricles.

– Larguei um barro verde no vaso e, adivinha: não dei descarga! Hahaha… Tinha até uns pedacinhos de brócolis no meio.

– Péricles!

– Calma, era só a massinha de modelar da Astride.

– Você acha que vai funcionar?

– Assim espero. Funcionou na época em que ela me obrigava a comer bife de fígado.

– É mesmo, mamãe nunca mais fez bife de fígado. O que você fez?

– Lembra quando a schmier com pedacinhos de morango sumiu misteriosamente da geladeira…?

– Aham…

– Então…

‘A menina que não sabia ler’

22 de julho de 2011

     Na semana passada concluí a leitura de mais um livro: ‘A menina que não sabia ler’. Do inglês John Harding, a obra foi publicada por aqui pela editora Leya Brasil e não teve o destaque que merecia. Quando comecei a ler, o enredo me pareceu morno: uma rica órfã de doze anos que vai narrando suas aventuras na imensa mansão em que vive rodeada por empregados. Mais ou menos até a centésima página (o livro tem cerca de trezentas), a trama é monótona e bate uma vontade grande de abandonar a narrativa. Mas eu resisti e fui até o fim. Essa foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado.
     Com foco narrativo em primeira pessoa, a narradora personagem é Florence (ou Flo), essa jovem menina que, por razões não reveladas, é proibida de aprender a ler. Daí ‘A menina que não sabia ler’, por sinal um título muito mal escolhido, uma vez que a trama não vai para esse lado. Mesmo assim, a garota aprende a ler escondido (o que deixa o título mais absurdo ainda) e passa os dias trancada numa das torres da casa, imersa nas leituras sombrias e sinistras de Edgar Allan Poe e outros escritores macabros.
A chave para compreender a obra está exatamente nessa obsessão de Florence pela literatura. Quando seu irmão de sete anos, Giles, é retirado do internato ao qual não se adaptara, ambos passam a viver juntos na mansão. A menina começa, então, a desenvolver um sentimento de superproteção com relação ao garoto, o que é acentuado com a chegada da senhorita Taylor, a preceptora que Florence acredita se tratar de uma bruxa que quer separá-la de Giles.
     Aí é que o livro começa a ficar bom. Temerosa, Florence começa a ver e a ouvir coisas que atestam sua crença. Seria tudo fruto da imaginação de uma menina que se deixou levar pelas leituras mórbidas ou a realidade nua e crua? Isso o livro não nos revela. Fica a critério do leitor, portanto, confiar nessa narradora bem ao estilo de Bentinho, do romance machadiano ‘Dom Casmurro’, ou, então, analisar os fatos e encarar a história com certo ceticismo.
     Nesse embalo, Florence, sempre defendendo seu ponto de vista, vai tramando uma maneira de impedir a preceptora de roubar Giles. Eu não vou contar o final, porque seria uma grande estraga prazeres. Adianto apenas que é a melhor parte, porque a narrativa quebra o horizonte de expectativas do leitor, provocando aquela inquietação que toda boa leitura deve provocar.
     Talvez aqui, se repensarmos o título do livro, ele não pareça tão desvinculado da história. ‘A menina que não sabia ler’ pode não remeter ao universo da literatura, mas à própria realidade, porque não lemos apenas livros, mas também o mundo ao nosso redor. Se tomarmos o título como pista para desvendar a realidade trama, quem sabe cheguemos a alguma conclusão. Mas, se apelarmos para o título original, ‘Florence and Giles’, então talvez uma nuvem de fumaça nos impeça novamente de descobrir a verdade.

Felicidade: uma palavra abstrata

22 de julho de 2011

     Desde a última vez que me perguntaram se eu era feliz, tenho pensado muito a respeito do que seja, realmente, a felicidade. Isso se a felicidade puder ser definida com a certeza que pede o advérbio. Afinal, existem inúmeros conceitos que dão conta de explicar esse substantivo abstrato.
     Para um líder pacifista como Mahatma Gandhi, por exemplo, “não existe caminho para a felicidade, pois a felicidade é que é o caminho”. Para um filósofo como Immanuel Kant, “a felicidade não é um ideal da razão, mas, sim, da imaginação”. Para a psicanálise de Sigmund Freud, “a felicidade é um problema individual, onde nenhum conselho é válido, por isso cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”. Para o espiritismo, conforme definiu Allan Kardec, “nossa felicidade será naturalmente proporcional à felicidade que fizermos para os outros”.
     Na literatura, muitos escritores também pensaram a felicidade. A lírica de Carlos Drummond de Andrade poetiza que “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” e a de Mário Quintana compara a felicidade àquelas vezes em que “a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, por toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz!”. Para Leon Tolstoi, “a alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira”. Para Victor Hugo, “a suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados”. Para Fiodor Dostoievski, “a maior felicidade é quando a pessoa sabe por que é infeliz”. Érico Veríssimo pensou que “a felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”.
E, assim, em todas as áreas, todos os homens já refletiram, ao menos uma vez, sobre o que seja a felicidade. Emprego o verbo no subjuntivo, e não no indicativo, porque, diante de tantas definições, algumas complementares às outras ou até mesmo contrárias, fica impossível definir. Se a felicidade é o caminho, como saber se estou mesmo seguindo por ele? E, se estiver, não será fruto da minha imaginação? Como procurar, por mim, ser feliz se o outro ao meu redor estiver infeliz?
     Pode a felicidade existir sem motivos? E, se puder, viver já não seria um motivo de felicidade, uma vez que, para percebê-la, é necessário estar vivo? Ora, creio que enlouqueceria se simplesmente não pudesse perceber que a felicidade está bem diante de meus olhos, mas posicionada de modo a se alojar em meu ponto cego. Como enxergar algo que não sabemos que não enxergamos? E como saber se há, de fato, algo para ser enxergado? Fazer o bem e ser amado seria o suficiente para alcançar a felicidade quando existe uma felicidade maior ainda, que é o entendimento das razões que permeiam nossa própria infelicidade? E isso não nos tornaria mais infelizes ainda? Controverso… Como saber se a vida está passando inutilmente se somente o futuro provocará o distanciamento necessário para que percebamos com clareza o que estamos fazendo do presente?
     Diante da incerteza, da impossibilidade de conceituar, parafraseio a dialética de Vinícius de Moraes: é claro que a vida é boa e que tenho tudo para ser feliz, mas acontece que sou triste. Porque ser triste é indagar-se e não obter resposta. Perguntar-se sobre o sentido da vida ou sobre a certeza da felicidade é ser verdadeiramente triste, pois a tristeza é a ausência de respostas que nos convençam de que estamos enganados. Se tirássemos a prova real, veríamos que a felicidade está nas respostas que nos convencem de que estamos certos. A mim me parece hipocrisia, outro desses substantivos abstratos difíceis. Simplificando, felicidade é hipocrisia. Eis que se produz mais um conceito em meio a tantos outros.

Polissemia

22 de julho de 2011

     Em prantos, a esposa se perguntava por quê:

     – Mas, Dagoberto, por quê? Por quê?

     Transtornado, o marido tentava responder:

     – Não sei, Marialice, não sei.

     E assim o diálogo seguiu:

     – Ela é melhor que eu?

     – Ah, Marialice, isso não é pergunta que se faça.

     – É mais gorda ou mais magra?

     – Não sei, não reparei.

     – Não reparou, Dagoberto? Você está me dizendo que não reparou, Dagoberto?

     – Marialice, nós, homens, não reparamos nessas coisas.

     – Então vocês reparam no quê? Anda, me diz no que é que vocês reparam.

     – Não sei… Na alegria, talvez… Na simpatia…

     – Mentiroso! Eu não me conformo. Não me conformo.

     – Calma, Marialice.

     – Não me pede pra ter calma. Não me pede pra ter calma. Eu vou esganar aquela sirigaita.

     – Não faça isso, Marialice.

     – Faço. Vou esganar, depois vou picar em pedacinhos e fazer uma sopa. E aposto que você vai gostar de tomar.

     – Marialice, olha o que você está falando! Que absurdo!

     – Estou destruída… Que tristeza, meu Deus, que tristeza. Vou morrer de tanto chorar.

     – Não exagere, Marialice.

     – Você acha que é exagero? Eu sabia, a gente não devia ter assistido àquele filme.

     – Mas é só uma das atrizes, Marialice. E lá de Hollywood ainda por cima.

     – Não importa. Você disse que ela era boa.

     – Marialice, lembra da polissemia?

     – Poli o quê?

     – Polissemia. Lá das aulas de Português de antigamente. Boa não quer dizer exclusivamente ‘gostosa’. Quis dizer que a atriz teve um ‘bom’ desempenho, entende?

     – Não me enrola com essa gramática absurda, Dagoberto!

     – Não tô enrolando, Marialice. Eu já expliquei. É a polissemia…

     – Não quero saber!

     – Ah, Marialice, você me enlouquece, você me faz querer… Me faz querer…

     – Anda, fala!

     – Me faz querer… cometer… um homicídio… ah, falei…

     – Então, comete.

     – Ah, Marialice, você é uma mulher difícil…

     – Mas você se casou comigo, não casou? Agora aguenta!

     – Mas você não era assim… Você costumava ser doce… Um docinho de festa infantil…

     – Pois é… Você me amargou, Dagoberto.

     – Marialice, mas você continua doce…

     – Ah, querido…

     – Uma batata-doce… Pesada e difícil de engolir sozinho!

     – Ah, é, Dagoberto? Ah, é, Dagoberto? Então se prepara porque eu vou arrumar alguém pra te ajudar a comer essa batata-doce pesada e difícil de engolir.

     – Olha a polissemia, Marialice. Olha a polissemia. É por isso que a gente sempre briga!

Aversão às obviedades

22 de julho de 2011

     Tinha verdadeira ojeriza ao que era comum. Quando assistia a um filme com aqueles finais manjados ou então quando lia um livro com um enredo nada original, sentia muita raiva por ter perdido tempo. Também não suportava a ideia de conversar com alguém que lhe desse uma respostinha pronta. Ah, as respostinhas prontas! “Pois, é”, “fazer o quê”, “ a vida é assim”. Que não dissessem nada, mas que não viessem, pelo amor de Deus, com respostinhas prontas. E assim era toda vez que se deparava com o provável. Não podia mais frequentar lojas de departamento (“posso ajudar?”), não podia mais assistir a propagandas políticas (“o país precisa melhorar e vamos lutar para isso”), não suportava mais o cardápio do restaurante em que almoçava (peixes às sextas-feiras), nem as datas comemorativas (“feliz Natal e um próspero ano novo”, “felicidades”), nada! Tinha tanto asco do senso comum, que um dia disse para si mesma: “seja você a mudança que quer ver no mundo”. Quando se deu conta de que havia citado uma frase popularíssima de Gandhi, percebeu, paradoxalmente, que era mesmo hora de se rebelar.
     Começou pelo corte de cabelo: máquina zero. A sociedade adora gente cabeluda. As propagandas de xampu estão por toda parte. Cabelos volumosos, sedosos e longos. Seria careca. Depois, decidiu que pararia de se depilar. Axilas, pernas, virilha, buço e sobrancelha assumidos. E viva o pelo! Parou de fazer as unhas e também de escovar os dentes. Nada de limpezas de pele. O banho também foi erradicado. Como começou a ficar peluda, parou de usar roupas, já que os pelos cobriam o essencial. Passou a parar de comer no restaurante e a catar comida do lixo: um tapa na cara da sociedade, bem aos moldes vanguardistas. As necessidades fisiológicas, as fazia por ali mesmo, atrás de um arbusto, na base de um poste. Rebelde, animalesca, nojenta, podre, retardada, mal amada. Podia ser chamada de tudo, menos de garota comum. Pronto: missão cumprida.
     Até que se apaixonou por um veterinário lindo em cujo portão urinara uma vez ou outra. Olhos azuis, alto, loiro, atlético, voz de radialista romântico. Apaixonar-se… Que coisa mais comum… Tentou até parar, mas não tinha jeito. O homem era um deus grego. Que frase mais manjada! Tentou chamar a atenção dele. Um dia, enquanto dava marcha à ré para tirar a Ferrari da garagem, parou atrás do carro e se deixou atropelar. Gemeu de dor como uma cadela. Ele prontamente a colocou dentro do carro e a levou para a clínica de que era dono.
     – Mas que animal estranho! – pensou.
     Começou a examiná-la e percebeu que parecia uma mulher. Concluiu se tratar de uma aberração. Engessou a pata, quer dizer, o braço esquerdo e trancou-a na maior gaiola que tinha. Resolveu estudá-la. Fazia com que passasse por experimentos esquisitos, dava choques, injeções, examinava seus orifícios. Ela não gostava. Sabia que ele a tratava de uma maneira com que não se trata uma mulher, mas, mesmo assim, ela não gostava. Até que umas flores cairiam bem. Um convite para um jantar… Então, pela primeira vez na vida, sentiu falta das coisas corriqueiras, das obviedades… Trancada na gaiola, chorava todos os dias, o dia inteiro. Até que falou:
     – Não me trata assim não!
     A princípio o homem se assustou. Depois, resolveu cuidar dela. Deu um banho, arrancou todo aquele pelo acumulado, cortou as unhas, limpou os dentes. Estava linda, cheirosa e perfumada. Até umas penugens estavam nascendo no topo da cabeça. Quando ela começou a sorrir, ele trouxe um cordão do qual pendia uma medalhinha de prata. “Comum, mas tão romântico.” Colocou no pescoço dela. Apertado demais… Olhou-se no espelho: não era um cordão, era uma coleira.